Há falta de medicamentos nos hospitais públicos de Nampula

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Farmacos
  • Numa altura em que até o paracetamol falta, as autoridades tutelares apontam a má gestão como sendo a causa do défice.

Nampula (IKWELI) – Há mais de dois meses em que ir as unidades sanitárias públicas da província de Nampula, por padecer de uma enfermidade, e regressar a casa com um único comprimido virou excepção.

A equipa do IKWELI visitou diferentes centros de saúde da província e, nas respectivas farmácias o ambiente é desolador. Pacientes que cumprem longas filas para triagem, quando chegam as farmácias apenas lhes é dito que não há fármacos, incluindo o paracetamol.

Igualmente, o equipamento de trabalho dos técnicos e agentes da saúde, também, escasseia, até luvas, para não se referir dos produtos de limpeza e higiene.

Há quem defenda que tal crise, jamais vista no sector, devesse a má gestão e ao desvio dos medicamentos mas, sem provas materiais.

Só no município de Nampula, os nossos repórteres dirigiram-se a várias unidades sanitárias, com destaque para o 1º de Maio, Muhala – Expansão, Mutava – Rex, 25 de Setembro, Hospital Psiquiátrico, Hospital Geral de Marrere, Hospital Militar e o próprio Hospital Central de Nampula e o cenário é de que em casos de uma receita de três fármacos, os pacientes apenas recebem um único e o restante que “se virem”.

Nesta época chuvosa, casos de malária tendem a surgir na província de Nampula e, ao nível dos municípios pior ainda, com a situação irregular da recolha de resíduos sólidos.

Os medicamentos anti – maláricos não existem nas farmácias públicas e, única saída são as privadas que praticam preços proibitivos.

“Eu tive infecção urinária e receitaram-me estes medicamentos [exibindo-nos a receita], mas não encontrei nenhum na farmácia do hospital. Tenho de ir a farmácia privada, assim que eu tiver dinheiro. Agora não posso ir só para procurar saber dos preços e não comprar”, disse-nos a paciente Manuela, que acabava de ser atendida no Centro de Saúde 1º de Maio.

“Até coarctem, aqui não tem! A minha filha tem malária mas, só deram-me paracetamol. Sei que eles (os farmacêuticos) estão a proibir coarctem. Mas enfim, tenho de ir a casa e voltar depois de dois dias para ver se terei a sorte de encontrar”, conta a senhora Ermelinda, interpelada pelo nosso repórter no Centro de Saúde 25 de Setembro, na cidade de Nampula, para depois avançar que “eu não tenho esse 250 para ir na farmácia privada”.

Um paciente diagnosticado com uma ITS (Infecção de Transmissão Sexual) no centro de saúde de Mutava REX ao nosso jornal disse que a sua ida aquela unidade apenas valeu-lhe a orientação de que está infectado pois, “medicamento que é bom não tem nada”.

“Fui numa farmácia, na cidade, e as duas receitas, minha e da minha esposa custaram-me 240 meticais”, disse o paciente que reside em Mutava REX.

“O Centro de Saúde trabalha com sensibilidade, considera bem aos doentes, só que há dois meses que não há medicamentos e, exemplo concreto, minha filha quando estava com malária tive que comprar os medicamentos numa farmácia privada e fui cobrado 160 meticais”, disse Eduardo Bacar.

O cenário repete-se em todas unidades sanitárias, incluindo as dos distritos, de onde os nossos correspondentes indicam que a situação é ainda mais drástica por falta de opção há farmácias privadas.

Não há fármacos suficientes

Suleimane Isidoro é o médico – chefe provincial de Nampula e, em entrevista ao nosso jornal, apontou não haver ruptura de stock de medicamentos na mais populosa província do país, acusando os seus colegas de serem maus gestores.

A fonte admite que pode haver falta de um e/ou de outro fármaco mas, não se pode dar na generalidade a falta de medicamentos.

No seu entender, o problema é de gestão e desorganização por parte das unidades sanitárias.

“De 5 de Dezembro a 5 de Janeiro corrente fizemos a distribuição de medicamentos nas unidades sanitárias. Temos feito de forma muito antecipada, ou seja fornecemos medicamentos para um mês de consumo e um de reserva, para o mês seguinte”, disse o Doutor Isidoro.

Por outro lado, o nosso interlocutor defendeu que “há colegas que gerem mal os medicamentos. Como é que se explica que os de dois meses só acabem num único mês?”.

O nosso entrevistado fez saber ainda que o seu sector já disponibilizou quantidades de medicamentos para os distritos com problemas de vias de acesso para evitar quaisquer situação que possam isolá-los do resto da província pelas chuvas que se registam.

“Já fizemos a distribuição de medicamentos suficientes para até ao mês de Março para os distritos de Angoche, Liupo, Mogincual, Moma e Lalaua”, garantiu o dirigente.

Assumido ou não pelos gestores do sector de saúde em Nampula, o certo é que não há medicamentos e outros artigos médicos nas unidades sanitárias da mais populosa província do país. (Elisabeth Tavares, Constantino Henriques e Sitoi Lutxeque)