No norte de Cabo Delgado: O povo sempre morreu, eles a assistirem…..!

0
1246

Mocímboa da Praia (IKWELI) – Há mais de um ano e seis meses que uma equipa do jornal IKWELI, frequentemente, desloca-se as zonas onde ocorrem ataques na província de Cabo Delgado, respectivamente nos distritos de Palma, Macomia, Mocímboa da Praia, Nangade e Quissanga, o cenário é desolador. Fome, medo, insegurança e futuro de gerações destruído.

Um pouco por todos os cantos destes cinco distritos estão instaladas posições militares. Os elementos ali acantonados dedicam-se, quase que exclusivamente, do consumo de álcool de fabrico local, destruição dos poucos lares/famílias (açambarcando mulheres casadas sob ameaças aos seus maridos) que ainda ali existem, bem como o saque dos parcos bens que ainda podiam alimentar as comunidades.

De há uns tempos para cá, segundo apurámos, os homens das aldeias tem mais medo dos militares do governo do que dos atacantes insurgentes pois, qualquer força oferecida pelos membros das comunidades aos membros das Forças Armadas de Defesa e Segurança (FADS) que pretendem algum bem nas comunidades há, imediatamente, espancamento.

Por exemplo, em Mocímboa da Praia, uma fonte nossa que trabalha num estabelecimento bancário local conta-nos que “aqui acontecem coisas tristes. Por exemplo, se um militar quer a sua namorada pode muito bem inventar que te suspeita de seres aliado aos insurgentes e ai vem te recolher”.

 

A mesma nossa fonte conduz-nos pelos poucos locais de diversão que ainda existem em Mocímboa da Praia e aponta que “todos aqui são militares. Não vale a pena tentarmos nenhuma mulher aqui, vamos embora”.

Minutos depois decidimos visitar alguns locais da periferia da autarquia de Mocímboa da Praia para encontrarmos um local onde pudéssemos, livremente, beber uma cerveja. Cenário nada diferente. “Estão a ver aqueles ali?”, pergunta curiosamente a nossa fonte, para depois por se responder que “são militares. Aqui vamos ser estrategas. Vamos cumprimentar a eles e pagar cerveja”.

Entramos na barraca e cumprimentamos a todos. Pedimos para que sentássemos nas cadeiras vagas que estavam na mesa onde estavam os jovens militares, eis que não ofereceram resistência. Estamos por detrás de uma escola primária que virou um quartel militar, aliás, há escassos quilómetros do local onde teve palco o primeiro ataque dos insurgentes na vila da Mocímboa da Praia.

São 20h30 e os nossos “novos” amigos já nos apelam para voltarmos aonde estamos hospedados. A nossa equipa oferece mais cerveja aos militares e um deles garante-nos que “a vossa ida vamos todos no vosso carro e nós voltamos a pé, porque se saírem sozinhos não vão chegar. Serão detidos e até batidos. Aqui estamos cansados e nossa raiva cai sobre qualquer um”.

21h15 Minutos, decidimos sair do local e garantimos aos nossos “amigos” militares que nada ia acontecer. Trocamos de contactos telefónicos, para que na eventualidade de algo ocorrer chamássemos pelo socorro deles.

Estamos em Setembro do ano 2018. A situação torna-se calma em algum momento. O país prepara as quintas eleições autárquicas na história da descentralização do país.

No dia seguinte simulamos uma malária e fomos directamente para a única clínica privada que existe no município de Mocímboa da Praia. Tudo militarizado.

O técnico que atende ao nosso colega garante que o mesmo não tem malária, depois de observar alguns diagnósticos rápidos.

Na sala ao fundo é possível ouvir gritos de dor. Ousamo-nos e perguntamos ao técnico sobre o que se passava e a resposta não podia ser diferente: “nossos colegas sofreram ataques pela madrugada e foram trazidos para cá”.

“Vossos colegas?”, perguntamos, algo inocente e o técnico cansado e alcoolizado responde “sim. Nossos colegas militares. A noite não foi boa para nós”.

Com a recomendação de o nosso colega tomar um paracetamol abandonamos as instalações da clínica privada que, a bom rigor, apenas serve aos militares, actualmente.

Perto das 12 horas fomos a um restaurante localizado no parque municipal local. Pedimos um pouco de tudo: iogurte de malambe para começar, uma cerveja, água e refresco. Solicitamos uma refeição para uma hora mais tarde, enquanto conversávamos com um contacto nosso baseado naquela vila.

A dona do estabelecimento mostra-se surpresa porque os clientes já não aparecem com regularidade. Mesmo assim, providencia o melhor dos pratos que a casa confecciona.

A nossa equipa decidiu dar uma volta pelos bairros do município e damos conta que uma equipa de deputados da Assembleia da República visita a autarquia.

Voltamos a refeição e a quantidade do que nos foi servido correspondia a um banquete digno de um monarca.

Já pela tarde a dentro fomos para a zona do aeródromo e mais tarde a escola secundária local. O sentimento era sempre o mesmo. Um misto de medo e falta de esperança. Um futuro desencontrado para os mais novos.

Setenta e duas horas são o nosso fundo de tempo em Mocímboa da Praia. Depois de duas noites pernoitadas decidimos dar uma volta pelas aldeias. Nosso contacto na Aldeia Quelimane chamamo-nos atenção da necessidade de não se identificarmos nunca como jornalistas e assim obedecemos.

Acto imediato a nossa entrada foi apresentação às autoridades tradicionais locais. O régulo, depois de receber as nossas oferendas, começa o seu discurso e durante a conversa faz uma pergunta inusitada: “vocês sabem mexer uma pistola?”. “Porque?”, perguntamos ao régulo, ao que nos respondeu: “a arma que me entregaram parece que não está boa”.

O dirigente local deixa, assim, claro que há uma distribuição de armas para defesa pessoal em muitas aldeias locais.

Ainda na mesma aldeia, uma senhora conta-nos que está a cuidar dos seus sobrinhos porque o pais deles foi assassinado numa outra aldeia próxima.

“Como está a ver aqui só fiquei com as crianças. Não sei como vou alimenta-los porque tenho medo de ir a machamba cultivar. Os militares nem sempre podem nos acompanhar”, disse a nossa fonte, cuja identidade não pudemos revelar.

Por volta das 11 saímos da aldeia Quelimane e tomamos a estrada para Macomia. Logo pela estrada um grupo de militares pedi-nos boleia para alcançarem a posição de que pertencem. Fomos abertos a solicitação e durante a viagem fomos ouvindo as lamentações que eram partilhadas pelos militares. Um deles devia ter deixado, juntamente com a sua unidade, as matas de Cabo Delgado dois meses antes.

“Nada irmãos. Aqui está difícil”, responde um dos oficiais quando o perguntamos sobre o fim dos ataques, para depois rematar: “sabes, ali em Gorongosa nós sabíamos contra quem estávamos a lutar mas, aqui, não conhecemos o nosso inimigo”.

Estamos quase a entrada da vila sede de Macomia e os nossos companheiros pedem para ficar.

Os nossos contactos na região afirmam que os ataques armados são constantes e cada vez mais fortes, sendo a população o elo mais fácil de abater por não dispor de sistemas de defesa funcionais.

Aliás, segundo contaram-nos a agressividade dos insurgentes é tal que consegue penetrar em aldeias onde, pelo poder tradicional, nem se quer as tropas colónias conseguiram penetrar.

Portanto, nossas fontes nos distritos sob ataque de insurgentes afirmam que a situação é drástica e sem futuro a vista. (Aunício da Silva)