Manuel Tocova revela seu amor por Mahamudo Amurane

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Manuel Tocova, o polemico edil interino de Nampula fala porque devolveu vendedores nas ruas e passeios
Manuel Tocova, primeiro presidente interino do concelho municipal de Nampula

“Eu nunca falei mal de Mahamudo Amurane. Primeiro porque ele era meu conterrâneo. Portanto, em momentos livres nós conversávamos como irmãos. A diferença aqui foi de certa maneira ele distanciar-se do partido (MDM”.

“Quando as pessoas hoje dizem que eu persegui o Amurane eu sinto muito. O Amurane foi meu irmão. Se eu não segui a ele quando deixou o partido foi porque ele não trazia um argumento suficiente que sustentava a mim para eu seguir o partido dele”.

Entrevista conduzida por Aunício da Silva e Sitoi Lutxeque, com fotos de Hermínio Raja

 

Nampula (IKWELI) – O primeiro presidente interino do município de Nampula, Manuel Tocova, admitiu, em entrevista exclusiva ao Ikweli, que não dispõe de condições financeiras para suportar os seus encargos financeiros e sociais.

Em cerca de 45minutos de entrevista, o polémico autarca que se fez conhecer por actos menos bons e por condenações judiciais em tempo recorde disse que a sua vontade ao convidar vendedores ambulantes para tomarem as ruas e passeios do mais importante concelho autárquico do norte de Moçambique, foi norteada por boas práticas experimentadas fora do país.

A seguir acompanhe a entrevista na íntegra.

Jornal Ikweli (Ikweli): Qual foi a primeira decisão que tomou enquanto presidente interino?

Manuel Tocova (Tocova): Quando tomei o poder, como presidente interino, eu tive maiores desafios. Desafios eram de, primeiro, como sabe a nossa cidade estava ela toda cheia de lixo e naquele momento que nós não tínhamos fundos. Só para ver que a partir do governo provincial fecharam todo o dinheiro porque diziam que estávamos num momento de conflitos, porque acabávamos de perder um irmão, um homem, um herói (que eu o chamo assim) que de certa maneira revolucionou a cidade de Nampula. Revolucionou a região norte, por isso, porque não chamar de uma revolução do povo macua, numa altura em que nós queríamos, de facto, um líder que passasse a reconhecer que essa cidade é a nossa casa. Infelizmente, eu não tinha recursos, mas consegui ter contactos com alguns empresários da cidade e alguns parceiros, amigos que quiseram me apoiar e consegui ter combustíveis a tempo, até porque aluguei camiões para recolher o lixo na cidade de Nampula. Foi um momento que nós estávamos a chorar, porque perdemos um homem visionário e com capacidade de gestão invejável.

Eu digo que se o Mahamudo Amurane estivesse em vida, acredito que nessas eleições que vamos disputar com vários partidos políticos, merecia ser o governador dessa província.

Infelizmente, foi um momento que pessoas de má-fé, que eu nem quero mencionar os nomes, porque, também, a polícia estava a fazer o seu trabalho, denunciaram que eu tinha uma pistola, que nem era pistola porque, de facto, estava a passar dois anos que não era operacional.

Ikweli: Senhor Tocova, eu volto a lhe fazer a mesma pergunta, de insistência. Quando tomou o poder qual foi a primeira requisição que assinou? Consta-nos que a primeira coisa foi ter solicitado um telemóvel de alta qualidade.

Tocova: Eu não tive uma decisão sobre as contas. Isso é uma mentira porque eu tive um encontro com a ministra da Administração Estatal [Carmelita Namashulua] e outros quadros da tutela autárquica que deram-me uma orientação dizendo: Tocova, agora a missão é sua, não precisa ter aqui luxo, mas o senhor faça o trabalho que o Amurane fez. E esta foi a minha missão. Eu nunca pedi, em nenhum momento, telefone. Só para ver que mesmo agora a minha vida social está estagnada. Eu não tenho condição de nada. Se eu tivesse ambição de governar não teria tido necessidade de abandonar. Mesmo os que denunciaram que eu tinha pistola não haviam de falar, porque o que eles queriam era apenas eu manter o poder para comermos juntos, mas eu não estava a defender o interesse de um grupo. Eu estava a defender os interesses dos munícipes de Nampula.

Manuel Tocova sendo entrevistado no parque dos continuadores em Nampula
Manuel Tocova e o Director Editorial do Ikweli

Ikweli: Quem era o seu assessor?

Tocova. O meu assessor foi o senhor Albertino [refira-se dr. Albertino Miguel, advogado que o defendeu durante a sua passagem pelos tribunais] e aqueles velhos a quem eu confiava.

Ikweli: Ao nível do partido, quem o assessorava? Quem lhe aconselhou a mandar voltar os vendedores de rua para os passeios da cidade?

Tocova: Olha, só para ver que eu tenho 50 anos de idade e isso reflecte maturidade. E porque naquele momento em que eu era Presidente da Assembleia passei em várias cidades do mundo, mas encontrei vendedores de rua em todas as cidades. Infelizmente, a decisão que eu tinha tomado era de que os vendedores deveriam ser organizados. Alias, deviam estar em algumas ruas e não em todas as ruas, como agora acontece. Se hoje estão em todas as ruas, fecharam e não há transitabilidade, não deve ser responsabilidade do Tocova. Afinal das contas o que eu tinha decidido é que eles fossem organizados em associações, em locais próprios, e a serem fiscalizados pela polícia municipal e não serem escorraçados como aquilo que parecia desumano. Eu evitei isso. Eu dizia que nós não tínhamos emprego para todos os vendedores, e pensei que como não tínhamos mercados em condições, preferi, numa decisão pessoal, por uma iniciativa pessoa, pela experiência que vi em outras cidades, manda-los voltarem para as ruas.

Ikweli: Parece que o senhor Tocova, também, desafiou as leis e a justiça? Até nomeou vereadores mesmo sem mandato para o efeito. Teve alguma assessoria nessas decisões?

Tocova: Eu não quero aqui acusar a ninguém para eu me defender. Eu sou escravo das minhas palavras. Naquele momento por eu perceber que havia indivíduos que não queriam obedecer a mim como presidente interino tomei a decisão de exonera-los. Por exemplo, eu dizia “senhores vereadores eu quero que as receitas do município de Nampula sejam depositadas nas contas do municípios” e essas pessoas ignoravam a mim. E só para ver que até hoje aquele que era vereador da Finanças desapareceu. Aquele senhor devia ser preso como eu fiquei preso.

Ikweli: O senhor Tocova tinha um plano, devidamente, elaborado para o efeito?

Tocova: Eu já tinha um plano. Infelizmente, antes da execução desse plano tive aqueles problemas. Ai não tinha como implementar este plano como um plano piloto. Foi a partir dai que as coisas caíram duma maneira descontrolada.

Ikweli: De que é que se orgulha pela passagem no executivo do concelho municipal de Nampula?

Tocova: Eu me orgulho porque a partir dali nós encontramos aqueles jovens que eram chamados de marginais e passaram a ter negócios próprios. Os jovens até se recordam de mim e dizem que o Tocova foi o nosso herói, para além do Mahamudo Amurane que foi um herói pela organização que ele fez da cidade de Nampula. Mahamudo Amurane melhorou a cidade de Nampula, como vê, este parque popular (local onde decorreu a entrevista), nós tínhamos água aqui, mas neste momento está tudo isto escangalhado. Quer dizer, há má gestão dentro da governação.

Ikweli: E de quê se arrepende?

Manuel Tocova, o polemico

Tocova: Eu me arrependo neste momento por ter me aliado a Renamo. O que nós

 

pensávamos em que a Renamo viria a ter uma filosofia como a do MDM, mas a uma diferença enorme. Nesta diferença de gestão política é o que hoje vemos, uma cidade toda esburacada.

 

Ikweli: Qual foi o papel do Luís Boavida durante a sua governação?

Tocova: Eu não quero acusar o Boavida. O Boavida pode ser que as pessoas dizem que foi culpado, mas dizer que ele foi culpado podia dizer que a ministra da Administração Estatal, também foi culpada. Eu tinha uma pressão do governo.

Ikweli: Falava regularmente com a ministra?

Tocova: Sim. Eu falava sempre, mesmo com a Secretária Permanente de Nampula (Verónica Langa), o representante da tutela administrativa, e mesmo a própria ministra.

Ikweli: De que é que falavam com toda essa regularidade?

Tocova: Falávamos, sobretudo, sobre a gestão do município de Nampula. Eu dizia que não ia permitir trabalhar com pessoas que me desobedecem e eles diziam para eu agir de acordo com a lei. Eu fiz isto, por isso que eu exonerei aqueles vereadores e esperava que com o trabalho que com o trabalho que eu fiz (ao exonerar os vereadores) teríamos de facto pessoas competentes para cumprirem aquilo que eu decidia.

Ikweli: O Tocova está a falar de Mahamudo Amurane como um “menino” muito bonito, nem?

Tocova: Eu nunca falei mal de Mahamudo Amurane. Primeiro porque ele era meu conterrâneo. Portanto, em momentos livres nós conversávamos como irmãos. A diferença aqui foi de certa maneira ele distanciar-se do partido (MDM). Como sabe, o presidente da assembleia, só por si, naquela altura era oriundo de um partido. Eu estava a defender os interesses do partido, mas ele era gestor da autarquia. Ele foi eleito numa lista unipessoal. Eu aqui apareço a dizer, do fundo do coração, que Mahamudo Amurane dava-me muitos conselhos como gestor dizendo: “olha, Tocova, não podemos desviar os fundos do erário público, não podemos roubar”. Nós tínhamos uma linha que é para fazer dessa cidade desenvolvida. Infelizmente, quando as pessoas hoje dizem que eu persegui o Amurane eu sinto muito. O Amurane foi meu irmão. Se eu não segui a ele quando deixou o partido foi porque ele não trazia um argumento suficiente que sustentava a mim para eu seguir o partido dele.

Ikweli: Então, era de todo o interesse do Tocova dar continuidade ao trabalho do Amurane?

Tocova: Logicamente….

Ikweli: E porque decidiu banir toda a equipa do Amurane?

Tocova: Estou a dizer que os próprios vereadores não quiseram colaborar comigo. Isto quer dizer que ele tinha um grupo que pura e simplesmente não estava a seguir aqueles que eram os ensinamentos de Mahamudo Amurane. Eram pessoas manipuladas. Recorde-se que eles durante a eleição intercalar vieram publicamente a apoiar o partido Frelimo. Logicamente, nós nos apercebemos que quem estava por detrás daqueles vereadores para desobedecer e para criar desmandos era a Frelimo.

Ikweli: Vamos mudar um pouco o tom da nossa conversa. O Tocova foi preso?

Tocova: Eu fui preso.

Ikweli: Porque?

Tocova: Primeiro fui notificado e fiquei arguido porque desobedeci as entidades judiciais. Segundo, porque me encontraram com uma pistola. Isto é de lei que todo o indivíduo que tenha uma arma ilegal está a cometer um crime. A sorte que eu tive é que nunca tinha usado aquela pistola. Nunca disparei com aquela arma. Só para ver que dentro daquela arma foram encontradas as três munições que o dono da arma disse que estavam.

Ikweli: O Manuel Tocova disse, nalgum momento, que estava em parte incerta. O que queria dizer em concreto?

Tocova: Olha, eu não quero falar dessas coisas. Falar de lugares incertos eram questões políticas porque eu sabia que estavam a me perseguir porque quando as pessoas se aperceberam que Manuel Tocova tinha uma arma, logicamente, pensavam que é o Tocova que pegou na arma e disparou contra o Mahamudo Amurane.

Ikweli: Mas onde estava naquele dia que disse que estava em parte incerta?

Tocova: Eu não gostaria de dizer, taxativamente, onde eu estava.

Ikweli: Estava aqui na cidade?

Tocova: Eu estava na cidade de Nampula, mas depois fui a Gurúè no fim-de-semana. Mas, também, tomei conhecimento que havia um grupo que estava a minha procura. Eu tive a sorte de algumas pessoas terem ligado para mim a dizer que há pessoas que estavam a minha procura porque eu tinha uma pistola. Eu disse, só uma questão de provocar, que estava em parte incerta.

Ikweli: Vamos falar do assassinato do presidente Amurane. Circularam rumores que o Tocova foi ouvido em declarações pela justiça como teria sido um dos protagonistas do assassinato do autarca. Isso é verdade?

Tocova: Olha, é assim, eu quero lhe dizer francamente que as pessoas de má-fé tinham os seus interesses para recuperarem esta cidade. Eu, em nenhum momento, poderia pensar em ter uma ideia de assassinar o Amurane.

Ikweli: Das audiências que teve em sede de investigação criminal teriam lhe questionado a respeito do assassinato do Amurane?

Tocova: Olha, foram tantas perguntas que falavam, sobretudo, do Amurane. E eu dizia que estou fora desse assunto. Eu não conheço de nada, pelo contrário o Mahamudo Amurane foi o meu professor. Ele me ensinou como trabalhar. Se hoje eu sou líder não é porque eu sou um bom político ou um bom profissional, mas sim porque Mahamudo Amurane ajudou-me. Não havia razão nenhuma para eu pensar em fazer um crime. Mas, também, já imaginou o que é tirar uma vida humana? Sinceramente.

Ikweli: O Tocova odiava o Amurane?

Tocova: Não. Estou a dizer que ele era um irmão.

Ikweli: Quem é Manuel Tocova?

Tocova: Manuel Tocova sou eu. Sou eu.

Ikweli: Fale-nos de te.

Tocova: Eu sou natural de Monapo, Itoculo. Nascido em 1968. Estudei na escola primária de Murruto, vim fazer o ensino secundário em Mueria, Nacala-a-Velha, e depois fui capturado por uma força armada da Renamo. A sorte que eu tive foi de ser formado como professor militar e ensinava as crianças que eram raptadas ou perdiam os seus pais. Eu tinha construído um centro orfanato onde dava aulas a essas crianças. A partir dai, passei a ser chefe de educação das zonas da Renamo e expandi a rede escolar. Depois do fim da guerra, em 1994, as zonas da Renamo foram entregues ao governo moçambicano. Eu fiz parte do processo. Eu sou casado e pai de 8 oitos filhos. Agora estou a vender carvão. Afinal, aquela não era a única vida [referindo-se a política activa].

Ikweli: O Tocova continua politicamente activo?

Tocova: Naturalmente. Como eu disse estou a fazer 50 anos de idade, significa que 20 anos fiz parte da Renamo. Nesses anos só aprendi a fazer política.

Ikweli: Qual é a sua relação com o presidente Daviz Simango?

Tocova: Olha, eu não tenho um relacionamento assim profundo. Mas, eu tenho um relacionamento como membro do partido, como os outros. Eu sou membro do MDM e faço actividades para beneficiar a minha província.

Ikweli: As decisões que tomou enquanto presidente interino eram do conhecimento do Daviz Simango?

Tocova: Não. Eu não quero aqui acusar o Simango. Não quero dizer que o Simango sabia. Eu, apenas, estava fazendo um trabalho em coordenação com o próprio governo de Nampula.

Ikweli: Quem patrocinou a assistência jurídica do Tocova em tribunal?

Tocova: Quem pagou foi a minha família e o partido (MDM).

Ikweli: Quem lhe ofereceu o carro?

Tocova: O carro, neste momento, se prestar atenção verá que os documentos estão em nome do partido.

Ikweli: No futuro pensa em concorrer como cabeça-de-lista pelo município de Nampula?

Tocova: Eu não quero falar disso.

Ikweli: Quando o Tocova presidia o município, o Luís Boavida mudou-se para Nampula. Quem lhe pagava as contas no hotel?

Tocova: Não é bem assim que o Boavida mudou-se para Nampula. Ele veio apenas para preparar a eleição intercalar. E foi a partir dai que ele devia organizar o partido, pôr as bases a funcionarem. Eu nunca tive conselho do Boavida.

Ikweli: Quem lhe pagava as custas no hotel?

Tocova: Eu não sei dizer isso, se é o município ou se é o partido.

Ikweli: Qual era sua relação com o Américo Iemele?

Tocova: O Iemele era meu secretário na assembleia municipal. Depois, por decisão do partido, passou a ser chefe da bancada. E, pronto, ao tomar posse como presidente da assembleia e interino soube que ia dar continuidade da obra.

Ikweli: Quando ele era presidente interino vocês conversavam?

Tocova: Sim, conversávamos. Infelizmente ele ficou fechado ao ponto de não querer acatar as decisões do partido. Ele vendeu espaços públicos porque foi pressionado com aqueles vereadores.

Ikweli: O que lhe aconteceu quando estava na cadeia?

Tocova: Olha, eu não quero falar sobre a cadeia. Eu quando lembro da cadeia choro. Um dia fui simulado em que diziam que “Tocova, você já tirou aquela pistola então, tira-la outra pistola”. Eu dizia que a pistola é aquela. Num outro dia voltaram e me ameaçaram em levar para Namaita. Eu sempre lhes disse que o político espera três coisas: ser rico, a morte e acabar pobre.