Guerra de Cabo Delgado começa a assombrar Nampula

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Aldeia atacada em Cabo Delgado

Nampula (IKWELI) – O conflito armado e terrorista que se ocorre na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, desde Outubro de 2017, começa a ter impactos negativos para a mais populosa província do país, Nampula.

A chegada massiva de refugiados e o receio de Nampula ser um dos potenciais pontos de recrutamento de jovens para a insurgência está a afectar a estabilidade social, política, económica e cultural.

Regularmente, a Polícia da República de Moçambique (PRM) tem apresentado grupos de jovens que, alegadamente, foram neutralizados a caminho da província de Cabo Delgado sem objectivo claro da sua deslocação, concorrendo para a desconfiança de que os mesmos vão aquele ponto do país a fim de se juntarem aos terroristas. A título de exemplo, só no mês de Março passado, a PRM neutralizou, pelo menos, 77 (setenta e sete) jovens que seguiam para a província nortenha em conflito armado.

O então comandante provincial da PRM em Nampula, Moisés Gueve, dissera na altura que “este grupo de jovens é exemplo de vários outros que estão sendo enganados por indivíduos de má-fé com promessas de emprego, enquanto o destino é de ir engrossar as fileiras de criminosos que estão a desestabilizar algumas comunidades dos distritos de Cabo Delgado”.

O director do Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE), Salvador Forquilha, que se tem dedicado a trabalhos de pesquisa sobre a violência armada em Cabo Delgado, citado pela Agência Lusa, disse que “a insurgência em Cabo Delgado se serve de Nampula como reservatório de recrutamento [de membros]”.

Para Forquilha, o facto de Nampula ser vizinha da província de Cabo Delgado, a presença de várias formas de Islão em ambas as províncias e a extrema pobreza, são factores que podem ajudar a explicar o recrutamento de jovens para os grupos armados que actuam em Cabo Delgado.

“Jovens pescadores de distritos costeiros de Nampula, numa situação de pobreza e em conflito com o Estado, veem perspectivas em migrar para Cabo Delgado, onde acabam ingressando na insurgência”, enfatizou Salvador Forquilha.

Refúgio para as famílias

 As características sócio-culturais comuns entre a maioria dos povos de Nampula e de Cabo Delgado, concorrem para que as famílias vítimas dos ataques terroristas encontrem segurança e ponto seguro para refúgio a mais populosa província do país.

O conflito armado de Cabo Delgado, segundo dados de pesquisadores diversos, estima-se que já tenha resultado em mais de 600 (seiscentas) mortes e mais de 200 mil pessoas tenham sido afectadas.

Os distritos de Meconta, Nampula, Rapale e Nacarôa são os pontos, oficialmente, onde estão surgindo comunidades provenientes de Cabo Delgado a procura de segurança e sossego para darem continuidade as suas vidas.

A maioria das pessoas tem famílias nestes pontos de Nampula, mas segundo o que o Ikweli observou em alguns bairros do maior centro urbano do norte de Moçambique, esse acolhimento está a concorrer para a deterioração da qualidade de vida das famílias acolhedoras, das comunidades, assim como dos próprios refugiados, pelo facto de os agregados que, agora se formam, estarem a consumir a capacidade de sustentabilidade das mesmas famílias.

Os traumas, em consequência da guerra, são notórios. No bairro de Namiepe, a quando da produção desta matéria, a nossa equipa de reportagem chegou a ser desconfiada, sobretudo pelas crianças, como se de militares se tratasse. “Papa, militares”, gritou, em maconde, um menor de 3 anos de idade quando viu a equipa do Ikweli acompanhada pelo secretário do bairro.

A posterior, o pai do menor, Saíde Abudo, explicou que “o meu filho já colocou na mente a forma de estar e de andar dos militares, por isso que mesmo quando está a brincar com os amigos, e vê alguém com qualquer fardamento, pode ser polícia, abandona a brincadeira e corre logo para casa a chorar, porque já gravou aquela situação que vivíamos na nossa terra”.

Abudo disse que não consegue viver em Nampula, porque a vida é diferente da de sua terra, onde para além de trabalhar como segurança, tinha outra profissão de saber fazer.

“Eu tenho o sonho de continuar a viver na minha terra, porque não estou a conseguir acostumar a vida daqui, porque lá, para além do meu emprego de segurança, eu fazia trabalhos de mecânica de motorizadas”, disse Abudo.

O senhor Martins Constâncio, também, deslocado em Namiepe, contou pelos maus momentos que passou para conseguir chegar a província de Nampula. Cada história é ainda mais triste que a outra.

“Receberam-nos com as duas mãos, porque sabem que, para além de sermos pessoas como eles, somos cidadãos moçambicanos que fugiram de uma guerra que não se sabe se vai ou não atingir Nampula”, apontou Constâncio.

A unidade comunal Marien Nguabi, no bairro de Namutequeliua, é referenciado como “bairro dos macondes”, e para lá, também, muitos deslocados acorreram, sobretudo pela facilidade de comunicação em língua nactiva.

“Na verdade, aqui já recebemos muitos deslocados, mas não há nenhum problema, porque os moradores daqui receberam-os com as duas mãos e juntos estão convivendo, normalmente, e sempre têm tido reuniões com pessoal do governo”, disse ao Ikweli o chefe de um dos quarteiros de Marien Nguabi, Rito Gabriel.

Um dos deslocados disse que “não fugimos para outro país, estamos aqui na mesma pátria, e é bom saber que as pessoas daqui sentem aquilo que vivemos na nossa terra e nos receberam para convivermos como compatriotas que somos”.

Falta tudo para a sobrevivência das famílias

Ainda que bem recebidas, as famílias queixam-se da falta de mantimentos para a sua sobrevivência, sobretudo alimentos, roupa e cobertores.

“Desde que chegamos estamos a passar frio, porque mesmo nas noites dormimos com as roupas que usamos sem nenhum cobertor, por isso pedimos ao governo para que nos ajude. Temos recebido por vezes comida, mas não chega para muito tempo”, disse Constâncio

Manuel Mbuere, outro deslocado e vítima dos ataques terroristas em Cabo Delgado, avança que “esperamos que o governo faça alguma coisa, de modo a acabar com aqueles ataques e se tudo estiver melhor, podermos voltar para as nossas zonas de origem, porque é lá onde estão as nossas machambas”.

Segundo Castro Amade, líder comunitário do segundo escalão naquela zona, por mais que recebam apoio da população local, os deslocados ainda enfrentam dificuldades.

A fonte disse que os deslocados de insurgência na província de Cabo Delgado, começaram a chegar em Namiepe, nos finais do mês de Maio, e quando notou o movimento estranho, procurou-os, conversou com eles e depois de perceber que se tratava de pessoas que fugiram da guerra informou as autoridades governamentais.

Para escapar do frio, segundo observou a nossa equipa de reportagem, as famílias recorrem a fogueiras durante as noites para se aquecerem.

“Na verdade, eles passam essas dificuldades, o governo em algumas vezes tem ajudado em cesta básica composta por arroz, feijão e óleo, mas, por a maioria deles serem muitos a viverem numa só casa, às vezes a comida serve só para, no máximo, uma semana e continuam a passar fome. Por exemplo, hoje [dia que realizamos a entrevista] levei a lista de mais de trinta famílias que acabam de chegar para o governo e ainda não tiveram apoio”, confirmou o líder.

 Governo prometo terras para cultivo e habitação

O Delegado Provincial do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC), em Nampula, Alberto Armando, disse que enquanto os deslocados de insurgência nos diferentes distritos de Cabo Delgado escalados pelos terroristas não podem voltar para as suas terras de origem, o governo de Nampula já identificou um espaço na zona de Inthuthu, Posto Administrativo de Corane, que dista há 72 quilómetros da sede do distrito de Meconta e 62 da cidade de Nampula, onde serão atribuídos terra para a produção de comida e para a construção de habitações.

Segundo Armando, o local está próximo dos serviços essenciais, e um estudo preliminar efectuado indica que será necessário investir, pelo menos, mais de 72 milhões de meticais para garantir comodidade para as famílias.

“Serão construídas casas com material local cujo custo será de 60.000,00Mt (sessenta mil) meticais cada unidade, também se fez o mesmo exercício em relação a construção de furos de água, e nesta primeira fase serão abertos dois que terão um custo de cerca de 2.000.000,00Mt (dois milhões) de meticais. Na área de produção, onde consta os instrumentos e insumos necessários, e sementes, está estimado um valor de 7.481,00Mt (sete mil, quatrocentos e oitenta e um) meticais para cada família”, disse o delegado do INGC, para depois acrescentar que “as estruturas locais já estão a fazer o seu trabalho de sensibilização das comunidades circunvizinhas para que o trabalho ocorra sem sobressaltos”.

O medo da violência contra menores

  Oficialmente, sabe-se que a maioria dos deslocados são crianças e mulheres. Em relação a crianças, estima-se que 53% dos deslocados são menores de idade, e o facto preocupa as autoridades governamentais locais, segundo relatos apresentados pelo Secretário de Estado da província de Nampula, Mety Gondola, em reunião com a ministra moçambicana dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Verónica Macamo, que, recentemente, visitou Nampula.

“O facto da existência de maior número de crianças e mulheres, chama-nos atenção a necessidade de assegurarmos que possa se reduzir o risco potencial de existência de violência sexual contra a criança, prostituição infantil, crescimento de casos de casamentos prematuros e outros males que possam afectar aquela camada social”, disse Gondola, na ocasião.

Parte dos deslocados da guerra de Cabo Delgado acolhidos em Namialo

Para o governante, também, “é um desafio preparar a retoma das aulas e assegurar que as crianças possam encontrar um espaço de aprendizagem, certificar que elas não possam viver sem os cuidados de saúde básica e garantir que a vacinação seja respeitada dentro do espaço previsto e, acima de tudo, que possa existir um canto de esperança a cada uma delas que estão convivendo junto com as nativas e para que comunidade em geral, não esteja desestruturada em razão dos ataques violentos que estão a acontecer na vizinha província de Cabo Delgado”.

Não há riscos de discrepância de etnias

O sociólogo Dicson Guilherme refere que não há riscos de discrepâncias étnicas, porque Cabo Delgado é Moçambique, e todas as pessoas desse país são de uma só nação, daí que não há espaço de discriminação entre moçambicanos

“O facto de alguns cidadãos abandonarem os seus hábitos e costumes, não por livre vontade, para irem se integrar numa outra sociedade com diferentes rotinas, socialmente vai criar alguma transformação, porque as atitudes e o meio ambiente em Nampula são outros, mas acho que os nampulenses têm uma tarefa que é de receber e acolher esses irmãos, porque olhando para algumas zonas, numa casa avaliada para quatro pessoas, estão a viver mais de dez, e isso remete as pessoas circunvizinhas, a necessidade de acolher e amparar estes irmãos de Cabo Delgado. Por outro lado, o povo maconde precisa de olhar para sua etnia, seus hábitos e costumes, e conviver acreditando que estamos numa outra realidade. Provavelmente, as pessoas vem de um distrito ou uma localidade longe da vila do distrito por exemplo, mas estão aqui na cidade de Nampula, por sinal a mais importante da zona norte, e isso remete a outras formas de pensar e agir aceitando beber a água que se bebe em qualquer sociedade que está inserida”, disse Guilherme.

A fonte aponta a necessidade de algumas organizações não-governamentais serem impulsionadas para ajudarem, porque na sua qualidade de sociólogo, sente que o governo não está a ter a capacidade de resposta.

“É preciso encontrar ONGs que possam ajudar moral e materialmente as pessoas que estão a vir de Cabo Delgado, e tomar uma forma de controlo bastante séria no que diz respeito as medidas de segurança, porque é provável que as pessoas venham a cidade de Nampula ou algum distrito da província e envolver-se em actos criminais, daí que é necessário que o governo tome conta do recado para ajudar as pessoas que vem fazendo com que elas sejam integradas no convívio normal da cidade, como é o caso de Nampula, porque a vida no campo deve ser difícil, e devo acreditar que essas organizações poderiam ajudar a trazer um impulso sobre a continuidade da vida dos deslocados“, acrescentou o Sociólogo.

Mais um problema para Nampula

Para o presidente do partido Acção do Movimento Unido para a Salvação Pública Integral (AMUSI), Mário Albino, a situação de Cabo Delgado é mais um problema para a província de Nampula, porque as pessoas que se deslocam para esta região vão alterar as estatísticas nos processos eleitorais e não só, vai agravar a posição da pobreza na região.

“Como se sabe, a cidade de Nampula é a capital do norte e a mesma é a mais pobre em relação aos outros do centro e sul, por isso identificando-se com este problema e com os irmãos que chegam de Cabo Delgado fugindo da insurgência, vai complicar ainda mais a situação e vai agravar a pobreza, porque a população está cada vez mais a aumentar e os mercados onde todos poderiam procurar de comer fazendo negócios não podem ser ocupados por muitas pessoas devido ao coronavírus”, disse Albino.

O candidato presidencial do AMUSI para as eleicoes de 15 de Outubro proximo disse que esta a sofrer ameacas de morte, e disse que nao se pode ter o habito de matar pessoas como foi com o Amurane
Mário Albino, presidente do AMUSI, em campanha eleitoral 2019

O político concluiu que “isto é mais um desafio para a política, porque os partidos vão ter que trabalhar mais no sentido de abranger toda a sociedade, e também há necessidade de ser vigilantes porque não se sabe se nesta população que vem de Cabo Delgado não estão infiltrados os perpetradores dos actos terroristas naquele ponto do país daí o risco de um perigo para Nampula”.

A situação deve ser vista como de todo o país

Durante a sua estadia em Nampula, a ministra Verónica Macamo, também, elaborou sobre os deslocados de guerra e disse que “devemos ver aquele caso como uma situação de agressão a Moçambique que começou em Cabo delgado”, por isso os deslocados daquele ponto para qualquer província do país devem ser acolhidos como moçambicanos.

“Aquelas pessoas tem que ser bem recebidas em qualquer ponto do país, bem acarinhadas e apoiadas, recebendo um sítio onde possam alojar e ter condições básicas para que continuem a viver e olhar a vida com uma esperança, por isso gostaríamos de pedir a todos os que abraçaram esta causa e apoiam para que da mesma maneira que temos estado a trabalhar, devemos continuar porque o que implica colocar num local seguro e alimentar”, apelou Macamo. (Alfredo Célia)