Em 40 dias Nampula testou, localmente, mais de 3 mil amostras da covid-19 contra perto das 8 mil que se esperavam

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  • Devido a problemas técnicos, o equipamento instalado no HCN já leu resultados diferentes do que devia ser.

 Nampula (IKWELI) – O laboratório de Nampula para a testagem da covid-19 testou o universo de 3.054 (três mil e cinquenta e quatro) amostras de casos suspeitos do novo coronavírus, desde que entrou em funcionamento no dia 2 do mês de Julho findo.

As autoridades de tutela justificam que a falta de recursos humanos para o mapeamento e colecta de amostras de contactos dos casos positivos, ao nível dos distritos da mais populosa província do país, contribui para este reduzido número de testagens.

A referida unidade de testagem está sob alçada do Ministério da Saúde, através do Instituto Nacional de Saúde (INS), e foi instalada com o propósito de efectuar testagens massivas de pessoas suspeitas de serem portadoras da covid-19. O investimento financeiro não foi tornado público.

A cidade de Nampula, maior centro urbano do norte de Moçambique, foi o primeiro ponto geográfico a ser declarado com padrão de transmissão comunitária.

“Achamos que o processo vai permitir maior celeridade na testagem, mas também, vai permitir que possamos diminuir o tempo necessário para o fornecimento dos resultados”, disse o ministro da Saúde, Armindo Tiago, a quando da inauguração daquele equipamento hospitalar, acrescentando que “temos que associar esta capacidade de testagem com o inquérito que já foi realizado nesta cidade, sobretudo. Portanto, vai harmonizar isso e poderá aumentar o número de casos, que é aquilo que é esperado normalmente”.

Na altura, Armindo Tiago disse, aos jornalistas, que o laboratório tinha a capacidade de testar em média 150 a 200 amostras, diariamente.  Com base nestes dados ministeriais, era presumível que, volvidos 40 dias após a sua inauguração, o laboratório de Nampula tivesse analisado entre 6.000 (seis mil) a 8.000 (oito mil) amostras, o que não chegou de se concretizar.

Aliás, o número das amostras testadas pelo laboratório de referência de Nampula, durante o período em estudo, foi de 3054 (três mil e cinquenta e quatro) amostras, o que significa que, em média diária foram analisados 76 dados, um incumprimento na ordem de 61%.

Das amostras testadas, nos primeiros 40 dias do funcionamento do referido laboratório, segundo dados que tivemos acesso, 156 pessoas revelaram-se positivas para o SARS-CoV2, o que representa uma taxa de positividade fixada em 5% (cinco por cento).

Durante o período em análise, os distritos que fizeram o referenciamento das amostras, destacam-se Nampula com 1781 amostras, Eráti com 43, Larde com 225, Ilha de Moçambique com 122, Angoche com 24, Mossuril com 82, Murrupula com 58, Meconta com 124, Nacala-Porto com 326, Rapale com 24, Mogovolas com 77, Muecate com 30, Monapo com 25, Moma com 91, e Mecubúri com 5.

A informação foi facultada, exclusivamente, ao Ikweli na terça-feira (11 de Agosto) por Manuel Lázaro, chefe do Laboratório de testagem da covid-19 de Nampula.

Manuel Lázaro garantiu-nos que desde que o laboratório entrou em funcionamento nunca teve anomalias de grande vulto que justificasse a paralisação dos trabalhos de testagem, e disse possuir técnicos de qualidade admirável, e com vontade de trabalhar com vista a contribuir na mitigação dos impactos negativos da pandemia.

Entretanto, para a baixa media diária das amostras testadas ,desde que o laboratório entrou em funcionamento, apontou a falta de celeridade dos técnicos de campo, que são repontáveis pela colecta e canalização das amostras para alimentar aquele departamento laboratorial, recordando que “nós temos a capacidade de superar 200 amostras ao dia, se formos a trabalhar 24 horas, o laboratório faz 200 a 300 amostras, a vontade, mas como sabe, o laboratório para ter as amostras depende de quem está no campo. Então, isso depende daquilo que é o funcionamento das equipas de vigilância activa. Os positivos que acontecem, eles ditam as pessoas que vão ser colhidas, são os contactos, as portas de rastreio, por exemplo, o facto de um distrito ter um caso positivo indica que o distrito é sujeito a um rastreio, se as equipas estiverem a funcionar cabalmente, como manda a regra. Agora, se os números de positivos nos distritos estão a crescer e o número de amostras que é referida ao hospital está a reduzir, isso é um indicador de que alguma coisa que deveria ser feita não está a ser feita como deveria ser feita. Porque, só o rastreio de contacto é suficiente para deixar-nos sem tempo nenhum para o descanso, eles podem cobrir no máximo”, enfatizou o profissional da saúde.

Reiterando a sua posição, o nosso interlocutor precisou que devido a pouca demanda, desde que o laboratório foi inaugurado nunca funcionou acima de 12 horas diárias. “Até ao momento não houve razões que justificassem a operacionalização em 24 horas, nós apenas trabalhamos em 12 horas, havendo dias em que podemos estender até 15 horas de trabalho, nós estamos preparados para adequar a máquina para que possamos trabalhar, mas até o momento nada justifica para trabalharmos em 24 horas”, referiu o epidemiologista.

Há o registo de problemas técnicos

Depois da instalação e inauguração do laboratório de testagem da covid-19 de Nampula, observou-se um período em que a província mais populosa de Moçambique não emitia resultados, facto que abriu espaço para a especulação de que o equipamento alocado a esta parcela do país estava avariado.

Entretanto, e nesta reportagem, Manuel Lazaro, chefe do laboratório fez saber que não se tratava de avaria do equipamento, mas sim alguns problemas técnicos que faziam com que os resultados obtidos despertassem inconformismo no seio dos técnicos da linha da frente e, como não bastasse, toda corrida do dia era invalidada para, posteriormente seguir-se a nova testagem.

“Os problemas técnicos num laboratório de biologia molecular são esperados, porque estamos a trabalhar com matéria molecular, estamos a trabalhar com DNA, RNA. Quem trabalha com RNA precisa ter muito cuidado. Por exemplo, se começam amplificações que nos trazem reticências na cabeça, nós temos que abortar a corrida. Nós já tivemos situações em que tivemos que abortar a corrida, isto também pode afectar o funcionamento ou o reporte de resultados, pode ser o caso, mas nós como laboratório nunca tivemos casos em que paramos como tal, mas já tivemos situações em que as corridas foram abortadas, porque os nossos resultados têm que ser de qualidade. Se o resultado que obtivemos não nos convencer, nós não emitimos o resultado”, disse o epidemiologista, acrescentando que “nós precisamos de três genes para poder emitir resultados positivos, temos o gene ORF, N e E, são esses três genes que nós usamos para emitir resultado positivo. Para tal, a água que em princípio não tem material genético ela tem que ser negativa, agora se por uma e outra razão a água apresentar genes, nós abortamos a corrida toda e já tivemos situações dessas, cada dia que passa quando se trabalha com DNA é um aprendizado, então nós tivemos e cortamos, isso é assim, é preciso o controlo de qualidade, não só testar, não, é testar e fazer crítica aos resultados que vais ter. Se o resultado te dá certeza, então emite-se, ao contrário deve-se repetir a testagem”.

Nessa maratona, Lázaro contou-nos que num certo dia a sua equipa de trabalho foi surpreendida com resultados que não iam de acordo com a realidade, e como não bastasse, “informamos a capital que nós não estamos neste momento em condições de emitir esse resultado e continuamos ainda a fazer o nosso trabalho de casa até acertar, é uma situação técnica”.

O nosso interlocutor mostra-se optimista com a capacidade técnica dos profissionais com quem trabalha. Aliás, alguns problemas técnicos que o equipamento tem enfrentado, são solucionados localmente. “Primeiro nunca tivemos apagão nas máquinas, nunca tivemos falta de material, nunca tivemos falta de pessoal, já tivemos situações em que depois de fazer crítica aos resultados tivemos que parar com a corrida e quem resolveu o problema foram os meninos da casa”.

Melhorou o tempo de espera de resultados

 Num outro desenvolvimento, Manuel Lázaro fez saber que uma das grandes conquistas, nos primeiros 40 dias do funcionamento daquele laboratório, é a redução do tempo de espera para se emitir o resultado, por parte dos pacientes.

Mesmo sem avançar com o tempo exacto, o nosso interlocutor recordou que os dias que antecederam a inauguração do laboratório de referência de Nampula, o tempo que os pacientes levavam para terem acesso aos resultados dos testes era de tal forma que sufocava as pessoas, para além de dificultar o próprio controlo da pandemia a nível das comunidades.

Manuel Lázaro, responsável do Laboratório de Testagem da Covid-19 em Nampula

“Importa referir que, apesar de nós termos definido 48 horas como tempo de resposta, quer dizer, com o trabalho concluído, nós temos a responder em 24 horas. Isso é muito bom para o próprio processo de vigilância, assim como no processo de flexibilização da resposta, principalmente para o paciente que está dependente do resultado da covid-19 para fazer-se seus seguimentos”, destaca a fonte, para recordar que “os nossos positivos, como tem estado a acompanhar, eles estão distribuídos por alguns distritos da província de Nampula. Essa é a nossa forma de participar naquilo que é a vigilância ao nível da província. Nós já temos casos positivos nos distritos de Mossuril, Ilha de Moçambique, Nacala – Porto, Meconta, Larde, Murrupula, Moma, Angoche e o próprio distrito de Nampula, então, como pode ver, é uma situação que exige de nós um pouco de esforço acrescido de modo que possamos travar a propagação da covid-19 a nível da província, mas estamos satisfeitos com o evoluir, nós estávamos no princípio com taxas relativamente altas em termos de positividade mas, ultimamente os positivos estão a reduzir”.

O país precisando Nampula pode “acudir”

Paralelamente, Manuel Lázaro disse que o desejo actual é tornar o laboratório de Nampula como recurso para a testagem de casos da covid-19 à escala nacional, ao avaliar as condições do equipamento instalado, aliado com o nível de resposta dos seus colegas do sector.

Lembre-se que, a quando da inauguração do laboratório em destaque, o ministro da saúde do nosso país, Armindo Tiago, havia referido que para além de Nampula, o mesmo serviria para o referenciamento das amostras das províncias vizinhas de Cabo Delgado, Niassa, incluindo Zambézia. Entretanto, volvidos 40 dias, de acordo com Manuel Lazaro, Nampula ainda não recebeu casos destas províncias, “mas acreditamos nós que a medida que o tempo vai passando, como sabe, Maputo passou a uma situação daquilo que Nampula viveu, e eu acredito que Maputo poderá vir a ficar sufocado, quer dizer, Maputo poderá ter muitas solicitações para testagem e, nessa altura, creio eu que pelo menos Niassa poderá passar a referir para Nampula, tendo em conta, principalmente, o nosso tempo de resposta”, contextualizou.

“Nós temos nosso tempo de resposta muito bom, que é a metade do tempo de resposta que havíamos definido, isso é muito e muito bom. São, exactamente, esses dados que fazem com que nós nos candidatemos a ser ponto de referência para essas províncias que não têm laboratório. Nós esperamos, ainda, que venhamos a ser um laboratório de recurso a nível nacional, o nosso sonho é esse, que sejamos um laboratório de recurso em que, nalgum momento, Maputo precisando de um apoio Nampula poderá dar mão a Maputo e nós estamos abertos a isso, não nos limitamos apenas a região norte”.

É indispensável cumprir medidas de prevenção

O epidemiologista Manuel Lázaro, também, entra na onda dos apelos renovados às populações para a necessidade do cumprimento das medidas de prevenção do novo coronavírus, com vista a retardar os impactos nefastos da pandemia, porque “uma das grandes preocupações, ultimamente não está a se usar máscara nos estabelecimentos, não está a se medir temperatura, os baldes que deveriam ter água andam vazios na maior parte deles e os chapas andam superlotados. Quer dizer que está um desmando total”.

“Gostaria de apelar a população a respeitar o momento em que estamos, o estado de emergência decretado de modo ajudar a nós, sector da saúde, para controlarmos essa pandemia. A situação de covid-19 tem que se controlar, pelo menos nós temos que estar na lista dos locais que um dia vai ser silenciado e gostaria que fosse o mais rápido possível, que tivéssemos zero covid-19 e, isso vai ser possível se a população colaborar”, concluiu a nossa fonte. (Constantino Henriques)