Paroquia da Santa Cruz, na cidade de Nampula, acolhe mais 2.500 deslocados de guerra de Cabo Delgado

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Nampula (IKWELI) – Pelo menos 2.614 (duas mil, seiscentas e catorze) pessoas que fogem dos ataques terrorista na província de Cabo Delgado, no norte do país, recorreram a paroquia da Santa Cruz, na cidade de Nampula, como porto de segurança e refúgio.

Os crentes daquele templo cristão localizado no bairro de Muahivire distribuíram as 400 famílias para outras comunidades a ela pertencente, nomeadamente a comunidade – sede (Santa Cruz), a comunidade de São Paulo e a comunidade de São João de Brito.

Para confortar aos deslocados, os crentes têm se desdobrado em prover apoio diverso, dentre alimentos, vestuários e cobertores desde o mês de Maio que, aos poucos, as vítimas começaram a chegar naquela paroquia.

De acordo com o Padre Davide De Guidi, pároco da Santa Cruz, “acolher estas pessoas tem sido muito difícil, porque frequentemente chegam a nossa paróquia pouco mais de 200 pessoas vindos de Cabo Delgado a fugir da guerra. Igualmente, dificulta como encontrar abrigo e alimentação para os mesmos, uma vez que chegam com fome e não têm aonde descansar depois de uma longa caminhada. Daí que juntamos os nossos esforços e damos a estes, produtos alimentares, como óleo de cozinha, farinha de milho, arroz, entre outros. Também oferecemos esteiras, cobertores e artigos de vestuário”.

Dos crentes e de outros organizações da igreja católica, até ao momento, já foi possível juntar mais de 700.000,00Mt (setecentos mil meticais) para apoiar as vítimas dos ataques terroristas de Cabo Delgado. “O que acontece é que quando as pessoas chegam entram nas famílias dos crentes, sem antecedência. Porém, porque as residências são pequenas e o número de membros é acima de 15 pessoas, corre-se o risco de contaminar o coronavírus, entre outras doenças. Aliás, a fome começa a ter lugar no seio das famílias, o que nos leva a levantar a mão para apoiar”, apontou o clérigo Guidi.

Parte dos deslocados acolhidos pelas comunidades da Paroquia Santa Cruz

De Guidi reconheceu, em entrevista ao Ikweli que, que esta situação constitui um enorme desafio, sobretudo em momentos como este que o mundo atravessa uma das priores pandemias, mas adverte para que não seja perca de vista o apoio as vítimas da guerra terrorista, por isso, para ele, este é o momento em que o governo e a sociedade não devem abandonar as pessoas e a situação em que foram submetidas merece compaixão e atendimento rápido.

Aquele padre, da congregação dos missionários Combonianos do Coração de Jesus, entende que, neste momento de tristeza, as paróquias devem servir de um lugar de experiência de Deus. Os jovens, por exemplo, estão a viver um  momento de fragilidade, o que lhes pode mover à outras práticas não dignas a vida humana, sobretudo, as mulheres que se podem enveredar pelo caminho do casamento, não por amor, mas porque procuram as melhores formas de vida.

Daí que, “é importantíssimo e primário, o governo e a comunidade acolher e dar dignidade aos nossos irmãos que vêm de Cabo Delgado. Nós ressuscitamos em Cristo, se fazermos ressuscitar os nossos irmãos, vivemos se fazermos viver os nossos amigos e por fim, temos futuro melhor, se damos também um futuro aos carentes”, defende a fonte.

Num outro desenvolvimento, o padre Davide De Guidi deu a conhecer que, na passada terça-feira (11), um recém-nascido de apenas quatro meses, de uma mãe vítima da insurgência, perdeu a vida.

Este incidente leva ainda ao padre De Guidi a apelar as autoridades governamentais e a sociedade em geral, a prestar assistência alimentar, médica e medicamentosa aos deslocados, isto para evitar casos do género.

O gesto conforta as vítimas

Sem gravar a entrevista os cidadãos vindos de Cabo Delgado por causa dos ataques manifestaram o seu agrado pelo gesto que a população de Nampula está a dar, sobretudo, os crentes da paróquia Santa Cruz, assim como os líderes comunitários dos bairros de Muahivire e Muhala-Expansão, respectivamente, Muatala e zona residencial Militar.

“Eu recebi da igreja, um saco de 25 quilogramas de farinha de milho, uma barra de sabão, quatro mantas e igual número de esteiras. Por isso, estou muito agradecido porque não imaginava isso, uma vez que o que vivemos e os nossos conterrâneos que estão em Cabo Delgado passam, actualmente, é doloroso. Nós passamos dias e noites a correr de um lado para o outro a procura de um espaço para descansar, muitos morreram, casas foram incendiadas e outros bens destruídos”, contou-nos Abdala Juma Cha, jovem deslocado do distrito da Mocímboa da Praia, província de Cabo Delgado. (Esmeraldo Boquisse)